Nada de importante... 
  corner   



HOME

ARQUIVOS


"Falo a língua dos loucos, porque não conheço a mórbida coerência dos lúcidos." Luís Fernando Veríssimo

 

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

 
Sábado, Maio 05, 2007
Tenho tentado sentir o impacto que cada mínima coisa causa em mim. De palpitações e desespero a estados de sonolência e profunda calma, venho me perdendo a cada passo que dou. É um sentimento estranho, de que cada coisa que se passa pode simplesmente me destruir, e eu sinto medo. Posso deitar e descansar meus pensamentos com uma bela noite de sono, e em seguida acordar com o sentimento de que melhor seria se não tivesse dormido. Não consigo encontrar qualquer razão que explique isso e sequer consigo lembrar qualquer imagem simbólica em meus sonhos que poderiam, em alguma hipótese, me levar a tal estado de fraqueza. Por vezes apenas me sentei na cama e chorei, até notar que de nada isso adiantaria. Tentei então me levantar e começar o dia com ânimo, pura inocência a minha. Algumas pessoas simplesmente não têm ânimo de começar o dia e devo simplesmente admitir e aceitar que tenho sido uma delas. Então me encontro no estado estático de um dilema quase que palpável: me levanto da cama ou finjo não ter notado que um novo dia começou e volto a dormir? Penso e não chego a resposta alguma, até que pareço notar o longo tempo já decorrido entre o tocar do despertador e minhas indagações contínuas. Então me levanto simplesmente pra encarar um dia do qual não tenho a mínima vontade de encarar. É como se tivesse um guindaste que me tirasse da cama, conhecido por muitos como "sentimento de culpa". Culpa de não saber o que quer da vida. De modo geral, culpa de simplesmente estar completamente perdida. Encontrei-me no exato lugar em que me perdi da primeira vez. Não é uma posição confortável nem sequer um sinal de esperança ou segunda chance. É simplesmente algo voltando a ser como foi no início do erro inidentificável. Mas dessa vez não estou só.


Comentários:

 
Sexta-feira, Maio 04, 2007
Iniciando minha volta em busca do mundo literário.

EU JÁ

Como quem espera começar esse texto com impacto, a primeira frase do gênero "eu já" foi escolhida a dedo, muito antes de pensar em como tudo vai se suceder depois disso. Então vamos lá.
Eu já morei em um trailer. Eu já falei palavrão em português em rádio americana ao vivo sem que ninguém notasse que eu falava era besteira. Eu já chorei por amor. Eu já chorei por amizade. Eu já chorei por gente que não merecia uma lágrima minha que fosse. Eu já chorei por gente que não merece o chão que pisa. Eu já toquei guitarra pra mais de 500 pessoas. Eu já fui guitarrista solo de uma banda chamada "sapo suicida". Eu já fui punk e grunge ao mesmo tempo. Eu já tive medo de abraço. Eu já corri como a Pheebs de Friends em público junto com um carinha que veio a se tornar meu namorado anos depois (e ainda é). Eu já tomei glicose. Eu já entrei em coma alcoólico. Eu já fiz intercâmbio e engordei. Eu já fiz regime e perdi 20kg depois disso. Eu já achei que ser triste era bom. Eu já achei pessoas felizes demais irritantes. Eu já sonhei que podia voar. Eu já tentei voar depois disso. Eu já gritei de dor. Eu já gritei de alegria. Eu já gritei só por gritar. Eu já corri na chuva só pra sentir as gotas caindo em mim. Eu já passei mais de horas olhando as estrelas sem notar o tempo passar. Eu já li Goethe, Salinger, Camus, Sartre e Maurício de Souza. Eu já confundi amizade com paixão. Eu já fui deixada de lado. Eu já fui pra outro estado visitar uma amiga que conheci na Internet. Eu já dei mamadeira pra um bode. Eu já dei mamadeira pra dois bodes dentro do trailer. Eu já fiz bundão na janela de um prédio. Eu já me arrependi de coisas que não fiz. Eu já me conformei em não me arrepender de nada do que eu já fiz. Eu já tive uma overdose de cafeína. Eu já joguei um copo de coca-cola em um amigo porque ele me irritou. Eu já fui parada pela polícia porque estava olhando estrelas no meio da estrada de madrugada (sem ter qualquer substancia alcoólica ou narcótica no organismo, apenas por olhar, porque achava bonito). Eu já quase morri (nessa mesma noite). Eu já tive medo do escuro. Eu já tive medo do claro. Eu já tive medo do medo. Hoje tenho medo porque as vezes me parece que já não tenho mais medo de nada. Eu já experimentei substancias ilegais. Eu já abracei o Bon Jovi. Eu já recebi um "thank you" da Alanis Morissette. Já me disseram que eu consigo tudo que eu quero. Eu já cheguei a acreditar nisso um dia. Eu já deixei de acreditar. Eu já abracei minhas cachorrinhas porque não tinha ninguém pra abraçar. Eu já perdi o medo de abraço e acho que já abracei todo mundo. Eu já fui sincera demais. Eu já senti arder nas narinas o cheiro do rio Tietê. Eu já ouvi a mesma musica horas e horas seguidas. Eu já compus tantas canções que perdi a conta. Eu já gravei um cd solo. Eu já toquei pra abrir palestra, eu já toquei só pra mim mesma. Eu já escrevi poemas e eu já comecei a escrever um livro. Eu já me esqueci de como continuar. Eu já sou psicóloga e não sei o que quero da vida. Eu já pintei zilhões de quadros de vários estilos para descobrir que sou acadêmica ao extremo. Eu já chorei ao ouvir Chopin (Funeral March). Eu já ri ao ouvir Chopin (the entertainer). Eu já me assustei de ver que "a marcha fúnebre" do Chopin se chamava "a marcha fúnebre" porque achava a música feliz. Eu já chorei de susto. Eu já chorei de alegria. Eu já fui chamada de manteiga derretida zilhões de vezes porque eu choro a toa. Eu já toquei música infantil no piano de um navio pra duas pessoas estranhas que ficaram dançando ao som, mesmo que eu já tivesse dito que não sabia tocar direito e tinha apenas um mês de aula. Eu já voltei de madrugada a pé pra casa muito bebada todos os finais de semana entre meus 14 e 16 anos com dois melhores amigos. Eu já pensei que essa foi a melhor fase da minha vida. Eu ainda penso que essa foi a melhor fase da minha vida. Eu já não me importei com o que ninguém dizia. Eu já achei que o segredo do mundo e de toda a existência humana era o amor. Eu já brinquei de geloucos no escuro com um amigo como duas crianças, só porque eles brilham no escuro. Eu já toquei com um baterista que tinha um museu no lugar de uma bateria. Eu já vi o museu desmontar no meio dos ensaios. Eu já fui em praça chamada psycho square só pra tocar violão de madrugada com amigos. Eu já quis ser tudo pra alguém. Eu já fui tudo que alguém tinha e eu tive muito medo de falhar. Eu já fui taxada de doida só por ser eu mesma. Eu já fui mais corajosa. Eu já fui mais espontânea. Eu já fui mais feliz. Eu já não quero mais crescer. Esse texto me lembrou de tanta coisa que eu já não quero mais lembrar, simplesmente porque não é mais assim...


Comentários:





This page is powered by Blogger.